sexta-feira, 23 de maio de 2014

alice, sua puta

espectador de minha própria dor
ator do meu próprio horror
quantos comprimidos é preciso para comprar uma lucidez?
não há show.
como centro da personalidade
não há sensibilidade.
ou validade.
desintegração do meu ego
meu eu está cego.
incorporo sua percepção
mas não há revolução.
dissociação.
estou refugiada
nesta identidade unificada.
nesta irrealidade
ainda há integridade.
não há decoro em minha demência.
quantos compridos é preciso para comprar uma essência?

quinta-feira, 17 de abril de 2014

''Disseram-vos que a vida é escuridão; e no vosso cansaço, repetis o que os cansados vos disseram.
E eu vos digo que a vida é realmente escuridão, exceto quando há um impulso.
E todo impulso é cego, exceto quando há saber.
E todo saber é vão, exceto quando há trabalho.
E todo trabalho é vazio, exceto quando há amor.
E somente quando estais vazios que estais equilibrados.''
                                                                           O profeta - Gibran Khalil Gibran

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

TENTATIVA FRUSTRANTE DE ARRANCAR O ROMANTISMO DE DENTRO DE MIM NUMERO #1

YOUNG LOVE NEVER SEEMS TO LAST
.

Eu peguei aquele seu disco do The Doors
É que eu preciso sentar e o chão ta frio.
e meus dedinhos estão congelados
então não consigo por fogo na nossa cama pra esquentar.
to tentando, to tentando
Mas ta frio e minhas mãos estão congelando
então não consigo esconder minhas sujeiras.
eu estou suja.
e tem sujeira dentro dos cadernos,
mas você prometeu não olhar mais la.
É melhor ligar o fogão. Vou colocar fogo em toda sua coleção.
É que ta frio e os mendigos não me emprestam mais a fogueira deles,
desde aquele dia la que você disse pra eles que eles estão em prisão domiciliar.
você é um péssimo mentiroso, devia mudar de profissão.
Ainda posso dançar com os pés gelados.
E to dançando aquela música que você odeia.
E to dançando daquele jeito horrível que você odeia.
E meu rabo está pegando fogo.
Meus pés estão gelados
e você ainda não chegou.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
                                                  Augusto dos Anjos

sexta-feira, 21 de junho de 2013

o papo das moças esguias

mas a gente só rateia com os caras.
e tranquilo
eles caem direitinho.
e tranquilo
é charme pra mais de metro.
um metro e setenta.
e ainda ganho bônus com salto alto.
e não devia ser tão educada
meu negócio é por pra quebrar
ah como já quebrei a cara.
e corações.
mas nada de romantismo!
falar de amor é quase um crime.
prendam os amantes.
já estou presa aos meus.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

o jeito dos moços perdidos

o charme dos caras babacas
me deixam de ressaca
ao sorrirem para mim.
e as histórias de hippie
sobre mar, drogas e bitches
que soam com prazer.
e os garotos formosos
todos vaidosos
só querem o poder.
e os punks perigos
que se fazem de inimigos
estão sempre a beber.
e o cara da banda
que acha que sou santa
não quer nem saber.
e o moço barbudo
não carrega lembranças
só pensa em morrer.
e o cabeludo daora
me chama de senhora:
prefiro nem dizer.
e escritores perversos
são todos dispersos
é melhor esquecer.

ah, e aquele seu sorriso azul de vinho?

não meu amor, não vá, ainda encontro algum maço perdido. daquele azulzinho que faz o seu tipo, mas fica, por favor. é só pra você parecer perigoso, não é? e ainda te arranjo um chapéu de mafioso. mas fica. ta tocando a nossa música, aquela que fala que amor de jovens nunca dura. você não pode me deixar enquanto toca a nossa música. a nossa música dura. o meu amor também. eu te amei tão bem. e ainda sei fazer cafuné. meu amor, não vá comprar cigarros.

domingo, 31 de março de 2013


ser interessante aos 15 anos
é uma meta distante
ninguém conhece a vida aos 15
talvez a vida fosse um filme frances
ou um seriado americano
mas no fundo você sabe
que você vai ficar que nem sua mãe
não que isso fosse um problema
o problema é ter 15 anos
e saber que a vida não vai ser o filme francês.
mas o moço de 22 anos não achava isso
até sua vida virar uma novela brasileira.
e a moça dos contos de fadas
acabou
limpando privadas.
quando tudo parece um drama barato,
você tem a certeza
de que
filmes não imitam ninguém.
e que mesmo com 15 anos
você tem a certeza de
que
roteiros baratos
vão muito
além.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

um poema rude

eles seguem escrevendo
despejando poemas...
jovens garotos e professores universitários
esposas que bebem vinho durante a tarde
enquanto seus maridos trabalham,
eles seguem escrevendo
os mesmos nomes nas mesmas revistas
todos escrevendo um pouco pior a cada ano,
lançando uma coletânea de poesias
despejando mais poemas
é como um concurso
é um concurso
mas o prêmio é invisível.

eles não escreverão contos ou artigos
ou romances
apenas seguirão
despejando poemas
cada um soando mais e mais como os outros
e menos e menos como eles mesmos,
e alguns dos garotos se cansam e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho durante a tarde
nunca nunca nunca desistem
e novos garotos chegam com novas revistas
e há alguma correspondência entre homens e mulheres
algumas fodas
e tudo é exagerado e estúpido.

quando os poemas são recusados
eles os reescrevem
e mandam para a próxima revista na lista,
e eles fazem leituras
todas as leituras que conseguem
de graça na maioria das vezes
esperando que alguém finalmente os reconheça
finalmente os aplauda
finalmente os congratule e reconheça o
talento deles
estão todos tão certos de suas genialidades
há tão pouco autoquestionamento,
e a maioria deles vive em North Beach ou Nova York,
e seus rostos são como seus poemas:
iguais,
e conhecem uns aos outros e
se congregam e se odeiam e se admiram e se escolhem e se
descartam
e seguem despejando mais poemas
mais poemas
mais poemas
o concurso dos cretinos:
tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, ...            - Charles Bukowski