E sentada a beira do prédio fui me matando ao lembrar-me dos momentos em que estive com eles. Chiara me dava algumas cervejas e concordava. Sabemos que ela sou eu mas em outra dimensão. Tão iguais. Ou nos amamos ou nos odiamos. Apesar de estar mais propícia ao ódio, a companhia dela sempre me agradou. Abri a primeira cerveja. Eu podia dizer o quanto eles estão me matando e culpa-los pela podridão aqui dentro. Mas está visível na minha roupa suja de sangue.
- Por eles? Só sinto dó.
- Dó é um sentimento miserável.
- O ódio que sinto por eles também.
Tirei meus colares e anéis e deixe-os de lado.
- Me chamou de capeta, de demônio.
- O demônio não tem dó de ninguém.
Joguei a garrafa la de cima. Só ouvi o barulho dela explodindo no chão.
- Uma vez eu disse que iria me matar. Disseram pra eu me jogar de um prédio alto o suficiente pra eu morrer na hora, não queriam cuidar de mim numa cama.
- Acha que aqui é o suficiente?
- Nunca é o suficiente.
Soltei o cabelo e tirei o tênis. Arrumei-os ao meu lado.
- É difícil conviver com isso desde os 5.
- Como sabe que é desde os 5?
- Não sei. Mas com certeza é de antes, eles sempre diziam que fazer regressão é uma coisa ruim, que se esconderam alguma coisa de mim é pro meu próprio bem.
- Bem bem bem
- Dizer no dia do meu aniversário que seria melhor se eu não tivesse nascido e depois me dar um tapa na cara foi pro meu próprio bem também.
- Você guarda muito mágoa.
- Não por muito tempo.
Tirei a camiseta e acendi um cigarro.
- Eles estiveram me matando por tanto tempo.
- E conseguiram, sua alma fede.
- Os corpos deles também.
- Só te resta o físico, mas nem isso está inteiro.
- São apenas marcas, já desisti de chamar atenção pelo método infanto-juvenil.
Tirei as meias e as arremessei em uma janela aberta do outro lado da rua.
- Você não devia ter feito isso.
- Eu sei, dei o gosto de se livrar da convivência humana à eles.
- Acha que eles foram pro céu?
- Não sei, desde que não vão para o lugar que irei.
- E pra onde você vai?
- Eu vou pra minha Pasárgada.
- E oque tem na sua Pasárgada?
- Lá, eles não me amam me dando matérias. Lá, ninguém diz ''É claro que eu te amo! Não viu o que eu te dei semana passada?''
- Por isso está tirando a roupa?
- Sim. Não vou levar comigo nada material.
- Vai levar o emocional?
- Sim, só vou deixar aqui o intelectual.
- Porque?
- Não quero morrer por esquecimento.
- Vai acabar virando clichê adolescente.
- Na morte tudo é clichê.
Tirei o resto da roupa e fiquei em pé. Chiara me deu a mão.
- Levarei flores azuis.
- Assim espero.
Joguei-me. Chiara ficou sentada aproveitando minha última cerveja enquanto lia isso. E como de costume, ela adicionou o que faltava.
''Destinatário: papai e mamãe''
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