E sentada a beira do prédio fui me matando ao lembrar-me dos
momentos em que estive com eles. Chiara me dava algumas cervejas e concordava.
Sabemos que ela sou eu, mas em outra dimensão. Tão iguais. Ou nos amamos ou nos
odiamos. Apesar de estar mais propícia ao ódio, a companhia dela sempre me
agradou. Abri a primeira cerveja. Eu podia dizer o quanto eles estão me matando
e culpa-los pela podridão aqui dentro, mas está visível na minha roupa suja de
sangue.
- Por eles? Só sinto dó.
- Dó é um sentimento miserável.
- O ódio que sinto por eles também.
Tirei meus colares e anéis e deixe-os de lado. Ela acendeu um
cigarro.
- Me chamavam de demônio haha
- O demônio não tem dó de ninguém.
Soltei a garrafa. O vidro minhas ideias, o caco os pensamentos.
- Contei a eles do meu plano suicida. Era bom eu fazer direito,
nem fodendo iam cuidar de mim numa cama.
- Acha que aqui é o suficiente?
- Nunca é o suficiente.
Soltei meu cabelo enquanto ela tragava. Tirei o tênis, aquele com
qual pisei em todos. Arrumei-o ao meu lado.
- Desde tão cedo.
- Como sabe?
- Não sei. Mas sempre disseram que se esconderam alguma coisa é
pro meu próprio bem.
- Bem bem bem. Você guarda muita mágoa.
- Não por muito tempo.
Tirei a camiseta e com ela limpei o sangue de minhas mãos
- Eles estiveram me matando por tanto tempo.
- E conseguiram, sua alma fede.
- Os corpos deles também.
- Só te resta o físico, mas nem isso está inteiro.
- São apenas marcas, já desisti de chamar atenção pelo
método infanto-juvenil.
Tirei as meias e as arremessei em uma janela aberta do outro lado
da rua.
- Você não devia ter feito isso.
- Eu sei, dei o gosto de se livrar da convivência humana à eles.
- Acha que eles foram pro céu?
- Não sei, desde que não vão para o lugar que irei.
- E pra onde você vai?
- Eu vou pro meu país das maravilhas.
- E o que tem no seu país das maravilhas?
- Lá, os valores são outros.
- E está deixando o lixo.
- Sim. Não vou levar comigo nada material.
- Vai levar o emocional?
- Sim, só vou deixar aqui o intelectual.
- Porque?
- Não quero morrer por esquecimento.
- Vai acabar virando clichê adolescente.
- Na morte tudo é clichê.
Tirei o resto da roupa e fiquei em pé. Chiara me deu a mão.
- Levarei flores azuis.
- Assim espero.
Joguei-me. Chiara ficou sentada aproveitando minha última cerveja
enquanto lia isso. E como de costume, ela adicionou o que faltava.
''Destinatário: papai e mamãe''
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