quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

um poema rude

eles seguem escrevendo
despejando poemas...
jovens garotos e professores universitários
esposas que bebem vinho durante a tarde
enquanto seus maridos trabalham,
eles seguem escrevendo
os mesmos nomes nas mesmas revistas
todos escrevendo um pouco pior a cada ano,
lançando uma coletânea de poesias
despejando mais poemas
é como um concurso
é um concurso
mas o prêmio é invisível.

eles não escreverão contos ou artigos
ou romances
apenas seguirão
despejando poemas
cada um soando mais e mais como os outros
e menos e menos como eles mesmos,
e alguns dos garotos se cansam e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho durante a tarde
nunca nunca nunca desistem
e novos garotos chegam com novas revistas
e há alguma correspondência entre homens e mulheres
algumas fodas
e tudo é exagerado e estúpido.

quando os poemas são recusados
eles os reescrevem
e mandam para a próxima revista na lista,
e eles fazem leituras
todas as leituras que conseguem
de graça na maioria das vezes
esperando que alguém finalmente os reconheça
finalmente os aplauda
finalmente os congratule e reconheça o
talento deles
estão todos tão certos de suas genialidades
há tão pouco autoquestionamento,
e a maioria deles vive em North Beach ou Nova York,
e seus rostos são como seus poemas:
iguais,
e conhecem uns aos outros e
se congregam e se odeiam e se admiram e se escolhem e se
descartam
e seguem despejando mais poemas
mais poemas
mais poemas
o concurso dos cretinos:
tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, ...            - Charles Bukowski

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

E matou-a. Era o silêncio absoluto do chá das cinco, o sol ainda iluminava a sala de estar onde se encontrava embriagada sentada ao lado do relógio que marcava 17:43. A roupa amassada e a maquiagem borrada não escondiam os sinais da idade. Hoje, completara 22 anos. Vinte e dois anos desde a primeira respiração. Vinte e dois anos desde que o nada a fez viver. Vinte e dois anos de chances para morrer.  Morreu por nada, causas naturais: lucidez. Morreu por nada, causas naturais: loucura. Morreu por nada, causas naturais: o nada. Morreu de nada. Morreu, de nada. Morreu, por nada. Morreu, obrigada. Morreu obrigada. Morreu de morte.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Beba menos

A vida é injusta
a cerveja é triste.
Beba mais - diria Bukowski
Beba menos, eu digo
Eu não ouço ninguém
Nem mesmo à mim
Vire a garrafa - me disseram
Mas quem são eles?
Larguei
a cerveja
o Bukowski
o conselho.
A vida é triste.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Nado porque voar é impossível
Corro porque parado é sofrível
Gozo porque Deus é invisível
Acalmo-me pois o amanhã é imprevisível

Não durmo pois o sonho é inatingível
Espanto-me porque viver é incrível
Amo porque a paixão é fungível
Toco porque o físico é tangível

Tento porque tudo é corrigível
Insisto pois a experiência é factível
Recolho-me pois não sou indestrutível
Contenho-me pois sou movido a combustível

Contenho-me porque não sou imbatível
Cogito pois nem tudo é preferível
Ostento pois importa o indefectível
Apago pois nem tudo é imprimível

Calo porque nem tudo é exprimível

-  Invensão Noturna - Kleiton Gonçalves Bezerra Alves
sou presa na realidade
e movida pelo futuro
por isso leio horóscopos
é bom acreditar em alguma coisa,
sabe?
sou sensível
mas não acredito no amor
por isso sou romântica.
sou alcoólatra
mas não sou amante da vida
por isso escrevo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

você sabe que eu tentei
mas eu só tenho 15 anos e eu me importo em viver
e tudo bem se eu tiver que sofrer
mas é que sempre dizem tanta merda

e você não consegue acender o seu cigarro
e você ri de mim na rua
e você vai embora
e eu queria me importar

mas eu só queria mesmo chorar
ainda não aprendi a me importar
e eles só dizem que nunca vou amar
mas eu não me importo em não me importar

e você me da o seu cigarro
e você ri pra mim na rua
e tudo bem se você quiser ficar
eu realmente não me importo

e você acha isso tudo uma merda
e você me faz chorar
e eu acho que só escrevo merda
e é uma merda se importar

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

8 garrafas vazias e algumas lágrimas sinceras (round 2)


E sentada a beira do prédio fui me matando ao lembrar-me dos momentos em que estive com eles. Chiara me dava algumas cervejas e concordava. Sabemos que ela sou eu, mas em outra dimensão. Tão iguais. Ou nos amamos ou nos odiamos. Apesar de estar mais propícia ao ódio, a companhia dela sempre me agradou. Abri a primeira cerveja. Eu podia dizer o quanto eles estão me matando e culpa-los pela podridão aqui dentro, mas está visível na minha roupa suja de sangue.
- Por eles? Só sinto dó.
- Dó é um sentimento miserável.
- O ódio que sinto por eles também.
Tirei meus colares e anéis e deixe-os de lado. Ela acendeu um cigarro.
- Me chamavam de demônio haha
- O demônio não tem dó de ninguém.
Soltei a garrafa. O vidro minhas ideias, o caco os pensamentos.
- Contei a eles do meu plano suicida. Era bom eu fazer direito, nem fodendo iam cuidar de mim numa cama.
- Acha que aqui é o suficiente?
- Nunca é o suficiente.
Soltei meu cabelo enquanto ela tragava. Tirei o tênis, aquele com qual pisei em todos. Arrumei-o ao meu lado.
- Desde tão cedo.
- Como sabe?
- Não sei. Mas sempre disseram que se esconderam alguma coisa é pro meu próprio bem.
- Bem bem bem. Você guarda muita mágoa.
- Não por muito tempo.
Tirei a camiseta e com ela limpei o sangue de minhas mãos
- Eles estiveram me matando por tanto tempo.
- E conseguiram, sua alma fede.
- Os corpos deles também.
- Só te resta o físico, mas nem isso está inteiro.
- São apenas marcas, já desisti de chamar atenção pelo método infanto-juvenil.
Tirei as meias e as arremessei em uma janela aberta do outro lado da rua.
- Você não devia ter feito isso.
- Eu sei, dei o gosto de se livrar da convivência humana à eles.
- Acha que eles foram pro céu?
- Não sei, desde que não vão para o lugar que irei.
- E pra onde você vai?
- Eu vou pro meu país das maravilhas.
- E o que tem no seu país das maravilhas?
- Lá, os valores são outros.
- E está deixando o lixo.
- Sim. Não vou levar comigo nada material.
- Vai levar o emocional?
- Sim, só vou deixar aqui o intelectual.
- Porque?
- Não quero morrer por esquecimento.
- Vai acabar virando clichê adolescente.
- Na morte tudo é clichê.
Tirei o resto da roupa e fiquei em pé. Chiara me deu a mão.
- Levarei flores azuis.
- Assim espero.
Joguei-me. Chiara ficou sentada aproveitando minha última cerveja enquanto lia isso. E como de costume, ela adicionou o que faltava.
''Destinatário: papai e mamãe''

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Muito além das 8 garrafas vazias

Já foram quase dois litros de uma beberagem estranha preparada por ela. Depois da queda recolhi seus anéis, colar e roupas que sobraram. Fiquei com vontade de sair correndo até onde conseguisse. Sair como uma louca, gritando a plenos pulmões por ai. Ela tentou, mas não morreu. Enquanto eu tiver fôlego para gritar por onde correr, ela não morrerá. Que venham mais 2 litros, pois a noite juntou-se com o dia. Nem sei mais que dia é hoje. Odeio clichês adolescentes. Acabei de contar mais um. Pra quem odeia Bukowski... - Chiara

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Lágrimas sinceras depois de 8 garrafas

E sentada a beira do prédio fui me matando ao lembrar-me dos momentos em que estive com eles. Chiara me dava algumas cervejas e concordava. Sabemos que ela sou eu mas em outra dimensão. Tão iguais. Ou nos amamos ou nos odiamos. Apesar de estar mais propícia ao ódio, a companhia dela sempre me agradou. Abri a primeira cerveja. Eu podia dizer o quanto eles estão me matando e culpa-los pela podridão aqui dentro. Mas está visível na minha roupa suja de sangue.
- Por eles? Só sinto dó.
- Dó é um sentimento miserável.
- O ódio que sinto por eles também.
Tirei meus colares e anéis e deixe-os de lado.
- Me chamou de capeta, de demônio.
- O demônio não tem dó de ninguém.
Joguei a garrafa la de cima. Só ouvi o barulho dela explodindo no chão.
- Uma vez eu disse que iria me matar. Disseram pra eu me jogar de um prédio alto o suficiente pra eu morrer na hora, não queriam cuidar de mim numa cama.
- Acha que aqui é o suficiente?
- Nunca é o suficiente.
Soltei o cabelo e tirei o tênis. Arrumei-os ao meu lado.
- É difícil conviver com isso desde os 5.
- Como sabe que é desde os 5?
- Não sei. Mas com certeza é de antes, eles sempre diziam que fazer regressão é uma coisa ruim, que se esconderam alguma coisa de mim é pro meu próprio bem.
- Bem bem bem
- Dizer no dia do meu aniversário que seria melhor se eu não tivesse nascido e depois me dar um tapa na cara foi pro meu próprio bem também.
- Você guarda muito mágoa.
- Não por muito tempo.
Tirei a camiseta e acendi um cigarro.
- Eles estiveram me matando por tanto tempo.
- E conseguiram, sua alma fede.
- Os corpos deles também.
- Só te resta o físico, mas nem isso está inteiro.
- São apenas marcas, já desisti de chamar atenção pelo método infanto-juvenil.
Tirei as meias e as arremessei em uma janela aberta do outro lado da rua.
- Você não devia ter feito isso.
- Eu sei, dei o gosto de se livrar da convivência humana à eles.
- Acha que eles foram pro céu?
- Não sei, desde que não vão para o lugar que irei.
- E pra onde você vai?
- Eu vou pra minha Pasárgada.
- E oque tem na sua Pasárgada?
- Lá, eles não me amam me dando matérias. Lá, ninguém diz ''É claro que eu te amo! Não viu o que eu te dei semana passada?''
- Por isso está tirando a roupa?
- Sim. Não vou levar comigo nada material.
- Vai levar o emocional?
- Sim, só vou deixar aqui o intelectual.
- Porque?
- Não quero morrer por esquecimento.
- Vai acabar virando clichê adolescente.
- Na morte tudo é clichê.
Tirei o resto da roupa e fiquei em pé. Chiara me deu a mão.
- Levarei flores azuis.
- Assim espero.
Joguei-me. Chiara ficou sentada aproveitando minha última cerveja enquanto lia isso. E como de costume, ela adicionou o que faltava.
''Destinatário: papai e mamãe''

terça-feira, 2 de outubro de 2012

LÍLITCHKA! Em Lugar de Uma Carta


De qualquer forma
o meu amor
- duro fardo por certo -
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval -
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.  -  V
ladimir Maiakovski